RodaD'Àgua

Segundo movimento - a dança - vídeo demonstrativo

Roda D'Água

A fluidez da água é o elemento central de observação e criação para a videoinstalação Roda D'Água. Através dos movimentos fluídos, os vídeos da mostra representam metaforicamente os processos existenciais inerentes ao ser humano quando decidem trilhar o caminho do autoconhecimento. Uma sucessão de tensão e relaxamento até chegar à fonte original, onde tudo é princípio e fim. 

Obra 1 - A batalha, obra inspirada na Cosmococa de Hélio Oiticica,  reproduz um estado de luta e todos os desconfortos proporcionados por esta condição mental.

Obra 2 - A Dança traz uma leveza de movimentos e de ritmos que conduz a paz interior. Um estado de relaxamento onde o colorido e a claridade do vídeo leva a um estado de profundo bem estar.

Obra 3 - De volta a tensão entra a obra Densidade cujo o excesso de força constrói a luz artificial que por sua vez diminui o brilho e o vigor da força original.

Obra 4 - Após a nova tensão, um novo relaxamento. A obra Contemplação traz a suavidade dos movimentos da lagoa, quase imperceptíveis ao olhar rápido.

Obra 5 - E por fim a Abundância. Representação de uma nascente d'água,  a própria fonte da vida. De onde tudo nasce. 

Para cada obra uma ambientação imersiva com músicas, sons e objetos que geram conforto ou desconforto foi estabelecida.

Criação/filmagem/edição/animação - Kithi

Primeiro movimento - a batalha - vídeo demonstrativo

Roda D'Água

Texto: Dante Galeffi

A artista multimídia Kithi escolheu expressar-se através do meio cinemático. Seu foco intencional é a água, e nada melhor do que a cinemática para torná-la presentificada em sua fluidez, plasticidade e escorrência incontornável. A obra de Kithi se faz como meditação com a água, em uma acoplagem intencional marcada pelo encantamento do simples, da temporalidade dilatada, uma pausa longa dos estados mentais acelerados e estressados. A meditação com a água se revela em sua propriedade poética uma Roda D'água apresentada em cinco movimentos de certa forma ascendentes, pois é como se correspondessem a cinco degraus de um movimento místico de iniciação no mistério instante e insondável da água. O quinto movimento é uma imagem síntese da totalidade da obra, Holograma. De certa forma, uma vivência de estados da água além de sua utilidade vital, também como metáfora da criação de mundos possíveis e do mundo que cada ser humano é em seu existir singular. 

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O título da intervenção projetada por Kithi, Roda D'Água, é condizente com a intenção de presentificar o elemento água mostrado em suas virtualidades poéticas, formando uma roda d'água imaginária cheia de surpresas e ângulos a serem acessados pelo fruidor interessado na vivência estética em si. A roda é da água e para a água, uma roda que em seu movimento compõe uma ciranda de momentos entrelaçados pela intenção de louvar a água como matriz de tudo. Sim, a água é mostrada em seu poder-ser mais próprio: a água da vida que doa vida. Uma água plasmadora de tudo o que vive e também alcança autocontemplação no êxtase que é o ser senciente em seu acontecimento instante e sempre outro. Um maravilhamento que imita o dinamismo da vida em sua criação contínua.

Mas, como a água sendo um elemento tão comum pode metamorfosear-se pelas mãos que a capturam em fotogramas sinestésicos inusitados? É quando a água se revela outra, surpreende em sua aparição. Uma mira e uma máquina de captura se tornam o campo da revelação de outros espectros da água, mostrando-a como espelho da grande guerra dos mundos de memória cósmica. A filmadora com sua precisão definida em sua marca de série não é nada sem a mira apropriadora da artista. É a mira que faz a diferença quando as novas próteses de ampliação do percepto humano disponibilizam em grande escala o poder do uso estético das imagens em seus diversos registros sensíveis.

Quarto movimento - contemplação

A obra de arte-movimento de Kithi em sua forma formada e repetível em suas exposições possíveis oferece-se como encontro de um avanço da memória para o futuro do passado e do presente. Eis a Roda D'Água em seu movimento intencional surpreendente e recorrente. Tudo começa com A Batalha / Luta. Tudo tem início na luta de opostos. Uma guerra de formas primevas que evocam corpos protoplasmáticos em atrito e choque. A luta lembra a batalha da vida no meio líquido de sua origem matricial. A água tornando-se o meio de revelação da intencionalidade da artista. Afinal, tudo tem início com a grande explosão decorrente do encontro de polos energéticos distintos. Mas a figuração da luta de opostos é uma invenção da inteligência humana operante. E a própria vida em sua multiplicidade apresenta a luta como sua constituição própria. Pois tudo o que é vivo se alimenta do que é vivo. Entretanto, é o olhar da artista que permite seguir o vórtice da luta capturada em efusões cromáticas e inversões de figura e fundo. O inverso do padrão perceptivo estabelecido culturalmente surpreende o olhar do fruidor que se vê transpassado pelo que se mostra e desoculta. O desocultado segue abrindo-se para o inusitado encantador.

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fragmento da obra a batalha

O encantamento, então se dá em seguida como A Dança. A água também dança e seu dançar forma preces e gestos de entidades estilizadas elegantes e leves como pluma. Recortes de formas que se entrelaçam em um ato de amor intransponível, inaugural do cosmos como relação de opostos complementares. O próprio movimento de tudo é um ato amoroso do encontro do diferente com o diferente, o entrelaçamento radical dos opostos e a transcendência da luta pelo alcance da harmonia mais bela. A própria dança reúne os diferentes em um âmbito comum e pertencente. Além da Batalha há também a dança dos opostos sem os quais nada seria como está sendo. Além da luta há o amor que a tudo reúne no mesmo sem-fundamento. Tudo, então, se transfigura em dança e dança em ato criador contínuo como água. A Dança produz a reunião das águas e o poder se presentifica em sua Densidade. 

 

Segundo movimento: a dança

Entramos no terceiro momento-movimento da ciranda rodada. A densidade da água é formada por suas precipitações abissais. Enquanto um simples filete de água em queda não tem o poder de produzir densidade, a reunião de águas formando amplos rios em queda abissal produz sua densidade mais visível. Nada se compara ao poder da água reunida e precipitando-se nas quedas bruscas que desenham as cachoeiras. Quanto maior a altura de uma queda d'água maior sua densidade geradora de energia potencial. O poder da água se faz pela reunião e multiplicação de seus átomos e moléculas singulares. A união faz a densidade que é força movente.

É quando a Densidade provoca a Meditação. O quarto momento-movimento da ciranda convida o fruidor a pousar o olhar no suave movimento da água de uma lagoa povoada de pequenos caniços dourados e esmaecidos que balançam lentamente ao sabor dos ventos e das correntes submersas. Os caniços retém detritos como se fossem filtros purificadores. A meditação se dá como parada do olhar diante de uma paisagem recortada pelas mãos da artista. Pois meditar significa pousar e deter-se como observador dos próprios pensamentos (afetos, perceptos, juízos, conceitos), até o alcance do não-pensar pleno: vazio-cheio. Mas a meditação também é sempre uma singularidade que se encontra imersa na totalidade. Uma singularidade como movimento de subjetivação contemplativa. Meditar é também contemplar na medida em que o contemplar é um divisar singular de momentos de totalidade. É quando o singular se faz plural em seu poder de multiplicação de si. A meditação afina o instrumento perceptivo clareando tudo. É quando a multiplicidade se encontra reunida e a unidade se faz como compreensão articuladora. Na meditação a unidade não encontra figuração possível. Não se trata mais de captura de imagem em seu fluo cinemático. Não é uma unidade passível de representação, pois toda representação cessa e toda projeção mental silencia para dar voz ao que ressoa do mais abrangente abismo: o salto de natureza entre um e outro silêncio.

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fragmento da obra contemplação

Do abissal Nada irrompe a Abundância. Acessamos o quinto momento-movimento da ciranda. A abundância desoculta o poder mais próprio da água. Na água toda a vida encontra o meio de seu nascimento. Como matriz da vida, a água é a imagem da Abundância. Mas, se tudo é abundância porque provém da água matriz, como mostrar a abundância em sua abundância? Entra a mira da artista para escolher o campo de visada da Abundância nomeada. A abundância se mostra como o poder da multiplicidade e da diferenciação. A Abundância dá origem ao variado mundo das infinitas possibilidades de abundância. A vida abundante se mostra em seu plano criador infinito. As singularidades da abundância são seus momentos abertos ao imprevisível e sempre novo ato criador múltiplo. Pois a abundância alcança todos os planos de imanência da vida em todas as suas formas em devir. A abundância é como a água em sua forma maleável e simples, sendo a imagem da mais sublime bondade, a tudo beneficiando sem preferência e permanecendo silente nos lugares desprezados. A abundância como a água assemelha-se ao caminho sábio.

Imagem do holograma da obra abundância